Você sabe o que é “dar um grau”? Prática – polêmica – é cada vez mais comum entre jovens motociclistas

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FOTO: FELIPE LAROZZA/ VICE

Matéria especial de Rafael Moura da Agência Énois feita para o UOL

Todo mundo tem pressa e eles estão ali para resolver a urgência de geral. “Formigas” da economia de serviços em São Paulo, os entregadores de aplicativo vivem a adrenalina das ruas, mas na hora do lazer não largam a moto e a bike. Grauzeiros fazem dos parcos momentos de ócio uma diversão, sem descer das rodinhas.

Na magrela é empinar e rodar, mas para quem vai de moto, a dificuldade aumenta. Estica na primeira marcha. Joga na segunda, acelera, aperta a embreagem e solta. Joga o corpo para trás para dar o impulso. Quando subir, volta ao acelerador, corta na embreagem e controla no freio. Adrenalina, equilíbrio e concentração.

No último dado divulgado pelo Detran de São Paulo, em agosto de 2019, a frota de motocicletas, motonetas e afins, só na capital paulista, chega a mais de 1,2 milhão. Isso dá mais ou menos uma moto a cada 9,7 habitantes da capital. No estado de São Paulo, as motos passam da marca dos 5 milhões.

Aos finais de semana rolam encontros de amigos, os fluxos do grau, onde geralmente os motoqueiros ocupam ruas sem saída ou pouco movimentadas, onde não há o risco de trombar com a Polícia Militar. Um desses rolês é o Quintal do Grau, um lugar quase secreto que existe há quase um ano, localizado na Favela da Coca, em Diadema. A poucos metros do local, já é possível escutar o barulho de escapamento estalando e de placa raspando no chão. O Quintal é formado por duas ruas de asfalto sem saída e com uma única entrada. Ali, mais de vinte motos andam de um lado para o outro, dando grau em alta velocidade, enquanto outros motocas e crianças observam o fluxo.

“Achamos esse espaço bem isolado, longe da população, sem oferecer risco para ninguém”, conta Vitor Hugo, 22, de São Bernardo do Campo, sobre o surgimento do Quintal do Grau. O motoboy perdeu as contas de quantos acidentes já sofreu em cima da moto. “Liberdade total” é como ele define o grau.

Marcos Vinícius, 21, autônomo e morador de Diadema, costuma ir ao menos duas vezes por semana no Quintal. O jovem se considera um alucinado em grau desde muito pequeno. “Pra mim, a emoção é muito boa. Só quem tá nesse rolê do grau sabe. Dar grau não é zoeira, é pra desestressar. Grau é terapia.”

Aliás, o certo é falar em “grauterapia”, como descreve Osmar Machado, 25, motoboy de Interlagos que está sempre praticando grau no Quintal. “Grau significa muito para mim. Me traz calmaria. O efeito de quebrar limites vicia, você sente que é capaz de fazer cada vez melhor. Traz liberdade e concentração”, conta ele.

De lei e fora da lei


Trombar com a Polícia Militar é um risco porque a diversão é considerada infração gravíssima, com perda de sete pontos na carteira, multa, suspensão do direito de dirigir e recolhimento do documento de habilitação. O artigo 244-III do Código de Brasileiro de Trânsito proíbe “a realização de malabarismo ou equilíbrio em apenas em uma roda” como “demonstração ou exibição de manobra perigosa”. O problema é maior porque as autoridades podem abusar do poder e fazer mais que multar e apreender a carteira de motorista.

Carlos João*, 20, sabe bem como isso rola. Era quinta-feira, 19 de setembro de 2019, quando, assim que chegou do trabalho, por volta das 17h, pegou sua moto de 160 cilindradas para fazer um favor para a mãe. “Já é de lei na rua de casa sair chamando no grau”, diz. Quando saiu surgiram dois policiais militares, cada um em uma moto. Enquadro na certa. “Disseram que iam apreender minha moto e aplicar multa. Depois decidiram me levar para uma rua deserta”, lembra. Ele pensava que ia tomar um “sacode” (agressão física). Mas foi sua moto quem sofreu as consequências do grau.

“Um deles puxou uma faca, mandou eu cortar os dois pneus, cabos de freio e cachimbo da vela de ignição. Depois disso, me liberaram”, conta o jovem. Segundo Carlos, ele gastou R$ 650 para consertar a moto para voltar ao trabalho. Mesmo com o risco, o prejuízo financeiro e as quedas, ele diz que não vai deixar de empinar sua moto. “Grau pra mim é arte. É uma sensação muito louca.”

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